A esquerda (im)perfeita

Sábado, o sol brilha e nem parece que estou quase em Novembro.
O Rui M. liga e desafia-me para irmos surfar, diz que na Costa vai estar razoável.

Na praia da Riviera o mar está grande, de fora não parece que vá ser fácil passar a rebentação. Mas é hora de equipar e regressar ao mar.
Depois de vestirmos o fato e fazermos o aquecimento, entramos, satisfeitos por perceber que a água não está gelada. Fica aberto o apetite para o pós-surf.

Com dificuldade em passar a zona de rebentação (o mar atinge uma altura razoável e eu ainda não sei furar convenientemente as ondas - duck dive), apanho uma ou outra onda mais pequena, depois de rebentarem. Mas não fico satisfeito. Quando fazia regularmente, estas ondas já me pareciam migalhas que não tinha vontade de aproveitar. Tudo bem que sou fraquinho, mas já tenho capacidade para melhores ondas.
A gula por ter um dia melhor, leva-me a seguir o meu amigo Rui mais para fora. Ele faz bodyboard há anos, tem grande condição física: corre, surfa, joga. Só é pena ter dois pés esquerdos, senão ainda ia roubar o lugar ao seu Elias.

Com as ondas a atingirem uns 3 metros medidos por trás (estão cavadas), decidimos deixá-las passar. Assim que as coisas acalmam reparamos que estamos bem longe da Costa. Fomos sendo levados sem dar grande conta. O problema? Agora as ondas pararam e estamos a nadar sem sair do mesmo sítio. Um agueiro, diz ele.



O Rui aguenta-se, está em grande forma e tem luvas e barbatanas que sempre ajudam a nadar e vencer o mar. Mas eu fico para trás. Não consigo sair dali, continuo a remar e vou-me cansando cada vez mais. Não estou preparado fisicamente. Nesta altura penso que já devia mesmo ter voltado ao ginásio, a correr, a nadar. O meu ombro esquerdo também não me ajuda, já me começa a dar aquela "moinha". E o facto de só ter comido um Kinder até entrar no mar, talvez também não ajude, digo eu.


Como bom amigo que é, fica comigo e incentiva-me a remar, mas eu já estou mesmo cansado. Digo que não estou a conseguir. Discutimos as opções e, ou me deixa sozinho para pedir ajuda, ou me tenta empurrar dali para fora. Eu já estou nervoso, e o Rui já grita para eu me calar e remar, que ele próprio também já está a ver a coisa mal parada.
Vamos tentar a 2ª hipótese. Ainda bem, suspiro eu. Ele empurra-me umas vezes, dá para avançar, mas pouco. Ainda estamos bastante longe.
Dá-se o golpe de sorte: estamos a avistar as ondas novamente. É agora ou nunca. O Rui empurra-me, grita que agora tenho de apanhá-las, sejam gigantes ou não. E tem razão. Mas as primeiras ondas ainda são pequenas, passam por mim e eu por elas.
Mas pouco tempo depois voltam as gigantonas, como diria o meu priminho pequeno. E aí vamos nós! Eu à frente, deslizando como num carreirinho. Dou graças pelo Rui e pela onda e deslizo a grande velocidade. A coisa está quase safa.

Mas, e porque a ironia é coisa fina, sem perceber, acabo de apanhar a minha melhor onda. Bom, a melhor ou a segunda melhor (na Ericeira parti duas quilhas há um mês, mas valeu muito a pena).


É verdade que ainda sou bastante limitado no surf, também é verdade que ainda me estou a ver livre do susto, mas não posso perder esta onda.
Levanto-me e tenho ali a minha esquerda. Perfeita. Vou com ela a uma velocidade já bastante interessante (OK, visto de fora acredito que tenha sido uma coisa normal, mas não para mim), sentindo os salpicos da parede que rola atrás de mim a grande velocidade. Estou em êxtase...estão a ser segundos de êxtase.


Ao chegar perto da areia avisto o Rui, pergunto se está bem e agarro-lhe na cabeça em sinal de agradecimento. Agora é hora de descansar, ele não precisa, mas eu sim.
Fico deitado na areia a respirar fundo e a tentar recuperar. O sol bate e deixa-me meio inerte durante 10 minutos. O suficiente para pensar que fui salvo por um lagarto, coisa que nem a mim nem a ele nos deixa confortáveis. Se calhar era melhor ele ter-me deixado ir.

Recomponho-me e levanto-me, vendo o Rui a sair da água na minha direcção. Começa por ralhar comigo.
Na verdade não achei que me ia colocar em apuros, mas aconteceu.
Mudamos para o registo de praia e vamos comemorar como se um dia de Verão se tratasse, de calções de banho e com vários mergulhos no mar.

A minha esquerda afinal foi imperfeita. Mas é nas imperfeições que procuramos o nosso melhor.

Obrigado Rui.


Edit: o Ricardo C. diz que era o mar a chamar-me, para a próxima é deixar-me ir. E fez este bonito poema, no qual me revejo e pode servir de resumo:

"O mar é gigante e eu sou anão
corro pela areia de prancha na mão
olhem para mim pareço um cagalhão

pelas ondas avanço tipo torpedo
a verdade é que estou borrado de medo
não quero morrer é muito cedo

alguém me ajude que é desta que me vou
porque me meto nisto que estupido sou
bem haja o Rui que me salvou"

5 comentários:

  1. Hmmm...bela história...mas sinto que falta aqui mais emoção. Acho que, pelo menos, devias ter engolido um pirolito ou dois...assim está fraquinho :)

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  2. Acho que a Pini tem razão...falta ai um pouco de emoção. Mas a verdade é que és um menino:), se te queres aventurar... fá-lo na banheira! Grande Rui para a próxima dá-lhe um calduço daqueles, ainda para mais ainda menospreza o facto de ser lagarto. Com isto devias-te converter...

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  3. Pini,

    Glup, glup, glup...

    Marco,

    Só tenho pena do árbitro não te ter dado logo o vermelho, meu grande carniceiro. Na próxima invado o campo sob a forma de protesto.

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  4. A anónima gostou muito deste texto! Dás-me tremoços?

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  5. Anónima,

    Aqui não dou nada. Vocês servem-se. Tremoços à direita, minis no frio, mais à frente.
    Porque faço isto? Porque gosto de vos ter por cá. Sirvam-se.

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