19/01/2011 - Akha Hill (Diário na Ásia - #5)

Do despertar ao pequeno-almoço passam apenas alguns minutos. Mais uma vez dispensámos a salada. Não queremos arriscar nos legumes mal lavados/não cozinhados.

Vista do quarto
Enquanto retirava a alface da minha sandes, descobrimos um italiano castiço, o Matteo. Adepto da Juventus, professor de 27 anos na China. Trabalha entre 1 a 5 horas por dia, num máximo de 15 semanais. É bem pago e tem 6 meses de férias. Era apenas um estudante de mandarim em Itália, não tem nenhum curso. Chegou à China, deram-lhe casa e pediram-lhe para ensinar italiano. Quando não dá aulas, anda a viajar pela Ásia. Not bad.


Iniciámos o dia propriamente dito com trekking, vendo aranhas de tamanho considerável, vistas magníficas e uma outra aldeia perto de nós. Na primeira paragem, peguei na catana que a Amu me colocou à cintura e experimentei moldar bambu. Não é preciso muita força, mas sim jeito. Fizemos pauzinhos para o almoço que se aproximava, bem como uma espécie de canecas. Ajudámos em tudo, mas o verdadeiro trabalho foi dos nossos guias. Os meus pauzinhos até desenhos tinham! Eles fazem tudo com bambu! Servem para construir casas, andaimes, talheres, copos, panelas, tubagens, etc.. Impressionante o que o Homem consegue desenvolver e criar quando a necessidade surge.

                                                                  Uma planta que mexe

Voltámos ao trekking, até chegarmos ao nosso restaurante. Um campo mais aberto, com uma casa de palha e água por perto, um riacho. Com os ramos que apanhámos pelo caminho, fizeram uma fogueira. Com folhas de bananeira envolveram os legumes que seguiram para dentro do bambu, o qual colocado na fogueira e tapado com outras folhas, serviu de panela. Brilhante.

 Serviram-nos noodles, não são a minha paixão, mas estava um almoço aceitável, acompanhado com uma cana de omelete e outra de arroz. OK, não podia evitar, comi comida de cá, feita pela tribo, a partir da Natureza. E no final um chá para aconchegar. Não consegui comer tudo, mas experimentei e retemperei energias.

Até aqui andámos juntamente com um casal de franceses desinteressantes e outro de suíços mais agradáveis. São uma cambada de tótós. Não fosse eu e o Jota e isto não passava de apenas um momento espectacular.

O guia e a Mouy, uma estagiária de Gestão Hoteleira que vem do sul, ficaram com os tenrinhos, que continuaram a fazer trekking o resto do dia. A guia Amu e outra estagiária mais nova, ficaram connosco. Sorte a delas!

Entrámos na selva densa, por vezes um pouco mais assustadora. Nalguns momentos, olhávamos à nossa esquerda e tínhamos um precipício, através do qual o nosso trilho o evitava. Noutras alturas pensava em cobras gigantes, quais anacondas, a passarem ali perto de nós. Mas tudo tranquilo durante a nossa caminhada, apenas a guia mais nova caiu ou escorregou umas vezes.

Chegados a outra aldeia, um barco levou-nos à outra margem do rio. Os elefantes esperavam-nos. Eram muitos! E um era nosso.
Demos meia volta e entrámos rio adentro, já montados no elefante. Molhou-nos um pouco, pois com a sua enorme tromba, aproveitou para se refrescar, atirando água para o seu próprio corpo. O rio era pouco profundo, talvez metro e meio. Saímos e passeámos pela aldeia e, através da condução que o guia fazia com os seus pés nas orelhas do elefante, mandou-o parar em frente a uma bananeira. O elefante posicionou-se, levantou a tromba e ao ouvir um imponente sinal, enrolou-se num ramo e aplicou-lhe um golpe seco, arrancando-o por completo. Foi-se alimentando até regressarmos à base, onde nos esperavam as guias.

E voltei a ver e a sentir algo completamente novo: cobras, grandes, envoltas em mim. Segurei nelas e posso dizer que gostei. Uma delas era grande e volumosa, a sensação dela a mexer-se pelo meu corpo e principalmente pelo meu pescoço foi realmente indescritível.

O barco levou-nos de regresso à outra margem e reiniciámos o trekking durante kilómetros, durante horas. Passámos por aldeias perdidas em nenhures, em inclinações tão íngremes que, a meio do caminho, tivemos de fazer bengalas para nos ajudarem a subir.


Foi durante este tempo que se criou uma ligação forte com Amu. Falámos da nossa vida, da dela, do que estávamos a viver, das diferenças culturais, de relações, da vida. E acreditem, foi tudo verdadeiro. Por esta altura, e perdoem-me a imodéstia, já todos, em Akha Hill, sabiam que não estavam perante os vulgares turistas. Brincámos muito, rimos, fomos em silêncio. A caminho do nosso último destino, pus toda a gente a cantar o "Ninguém pára o Benfica" por entre a selva. Disse que devíamos cantar o hino Português. E assim fizémos, até chegarmos finalmente à bonita e imponente cascata. A água corre fria e com vigor, sentindo-se a Natureza no seu refrescante esplendor.

                                                    Ninguém pára o Benfica...nem na selva!

Com muito cansaço à mistura, chegámos rapidamente a Akha Hill, onde nos cruzámos novamente com a Mouy, a outra pessoa com quem tínhamos criado empatia. Mas agora era altura de tomar um banho e trocar de roupa.

Jantámos com o Matteo, mas rapidamente o Tao, a Amu e a Mouy se juntaram a nós. A conversa continuou a fluir, e entretanto fui buscar duas rosas e ofereci-as às duas mulheres mais bonitas de Akha Hill. Vocês já sabem quem são: a nossa guia, dos seus respeitosos 40/50 anos, abraçou-nos. A nossa estagiária, nos 20, ficou embaraçada.
Tao e Amu
A nossa rosa para a Amu
O dia chegou ao fim, depois doutra noite excelente. É hora de ir para a cama com mosquiteiro.

12 comentários:

  1. Porque é que não levaste uma camisola do SLB?

    PS: Fiquei com inveja

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  2. E levei. Aparece noutras fotografias.

    Vai lá ver com os teus olhos e vais adorar. E leva os nossos cânticos além fronteiras :)

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  3. Agora voltando a ver as fotografias...ainda tinha crescido pouco cabelo. Que cena! E pareço um jovem teenager inconSSiente. Muito bom.

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  4. Em 1987, em plena floresta equatorial gabonesa, deparei com os pigmeus.
    É um povo nómada sem se fixar particularmente, andam nus, ou pouco menos; não cultivam, não se instruem, não são considerados por nenhuma nação, tanto habitam o Gabão como o Congo, Guiné Equatorial ou Camarões, portanto ninguém sabe a qual pátria pertencem, o que leva a que não sejam chamados para nada nem votem por nenhuma. Vivem do mel e do arco, não falam nenhum idioma conhecido e comunicam por estalidos. Enfim, homem primitivo.
    – Sou português, – disse eu sem nenhuma veleidade em ser compreendido.
    Ficaram a olhar para mim feitos parvos. Insisti no sou português, quando para meu espanto, um de entre eles se destaca e, apontando-me aos outros, disse com um largo sorriso de satisfação de orelha a orelha.
    – Bric, tric, trac, flic, plic...Benfica!

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  5. Também houve quem conhecesse o Benfica lá daquele lado do mundo. Mas essa história é muito melhor...

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  6. Por aqui os caboverdianos gritam mais do que nós a ver os jogos..e vestem as camisolas do Benfica no dia do jogo e no dia seguinte! Aqui vive-se o futebol como se estivéssemos em Portugal. Aqui todos têm um clube, Benfica, Sporting, Porto..! O guarda lá do prédio fica a ouvir os relatos num rádio pequenino! O futebol interliga os povos! =)

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  7. De notar: No vídeo da planta que mexe ouço uma voz de fundo de alguém (a quem vou dar o nome de Jota, uma vez que é o nome que dás aos teus amigos a quem queres preservar a identidade) que diz: "Mas vais ficar aí o dia todo a fazer isso?".
    Um pouco desmancha-prazeres, não?

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  8. Diana,

    Na Ásia têm como hino nacional português, o Ninguém pára o Benfica. Se conseguires fazer melhor em Cabo Verde, apita ;)

    Marilyn,

    Sim, é verdade que se ouve isso no fim. Mas é normal que assim seja, porque estamos a falar dum anormal. E não é estar a gabá-lo.

    Valdemar,

    Eu sei que a malta liga mais à bola, mas tentei fazer deste tasco uma coisa mais generalista. Vamos ver...
    Entretanto vai aparecendo, as minis e tremoços são por minha conta.
    Abraço lampião :)

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  9. POC,

    por experiência própria, dois blogues generalistas depois, que se transformaram em consultórios sentimentais antes de terminarem, e um blog de bola que se mantém de vento em popa... sei-o bem.

    Um forte abraço.

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  10. Efectivamente o post que originou mais debate até hoje, foi o de bola. Depois o de F1.

    Estarei eu condenado ao fracasso? Atendendo ao esgoto que são os meus post's, é possível.

    Abraço Valdemar!

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  11. Estou fascinada com a tua viagem!
    Espectacular :)

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