1930 - Chicago


Já vos contei daquela vez que trabalhei em Chicago como contabilista?

Estavamos no final de 1930, talvez em Dezembro, e era dono dum pequeno escritório de contabilidade na cidade. O dia já estava escuro há algum tempo quando, finalmente, cheguei à minha sala. Deixei a gabardine, e o chapéu, no bengaleiro da entrada e fui para a mesa. Não liguei a luz da sala - o foco das luzes da rua que entrava pela janela adentro era suficiente para eu chegar à mesa sem incidentes.    E pó. Vê-se sempre pó a pairar. Sentei-me e liguei um pequeno candeeiro de mesa.

- Dharma! - gritei. Chama "o homem" aqui ao escritório. Urgente! E já agora, traz-me um sandwish de rolo de carne.
- Mais alguma coisa? - perguntou ela, do outro lado da parede, naquele tom de quem está a fazer horas extra-ordinárias por obrigação.
- Manda vir o sandwish primeiro.

Abri a mala e tirei os cadernos e livros que tinha passado o dia todo a ler. Nada de novo. Eram os mesmo cadernos e os mesmos livros. Os mesmos quadros. E os mesmos números."O homem" chegou primeiro que a sandwish.   Porra Dharma, não fazes nada certo!   Entrou sala adentro de charuto na boca e visivelmente bem disposto - era última pessoa a quem uma proibição o ía impedir de beber álcool. Retirou a gabardine mas manteve o chapéu.

- B, o que pode ser tão importante que me faça sair do restaurante a esta hora? E liga-me esta luz! Morreu aqui alguém, ou quê? Estás com má cara. Estás pálido. Pareces doente. Vou mandar-te para a costa leste apanhar sol. Tenho lá uma casa, sabes? Olha, aproveita e manda cumprimentos ao John "Papa". Já não estou com esse sacana há álgum tempo. Como será que anda? Foi para a costa e não regressou. Um pai, sabes? Ele foi um pai para mim. Deu-me o meu primeiro canivete. Ainda o guardo. Ah Johnny... bons tempos...

Aproveitei que ele finalmente calou...


- Al, estes números não batem certo.   Sempre gostei de o poder tratar por "tu".
- Sabes que mais? Não me interessa isso. Resolve, e vem lá abaixo ter conosco. Leva a Dharma se quiseres. Prometo que não conto ao marido.

Saiu da sala a rir-se e deixou-me sentado na cadeira.   Resolve, diz ele. Se tivesse a mínima ideia. Se ele ao menos imaginasse onde isto vai parar...   Tirei a chave do bolso e abri a gaveta da mesa. Retirei a garafa de wiskey e o revólver. Era um Colt .38 que o Al me tinha oferecido, um ano depois de começar a trabalhar com ele. Um bom revólver. O wiskey, Johnny Walker como não poderia deixar de ser. Legítimo. Olhei para os dois em cima da mesa...

Enquanto levava a garrafa à boca, guardei a Colt novamente na gaveta.    Não. Ainda não é hoje. Já que fiz o fogo de artifício, agora quero vê-lo rebentar na parada. Se puder beber, melhor ainda...




Senõr B


9 comentários:

  1. Que cena tão à Alcapone!
    Oh Señor B, se trabalhou como contabilista, seja em Chicago ou na China, teria de saber o POC e mexer com ele, estou certa?

    Falo do Plano Oficial de Contabilidade, claro está!

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  2. Señor B, sempre o imaginei mais líder de um cartel.

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  3. Contabilista!! Claaaro...

    Tenho a impressão que vêm para aí mais qualquer coisa!

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  4. ó B.

    um gajo que vive em chicago e nem sabe escrever "Sandwich" é de lagarto!

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  5. Sakanagem está de volta:

    ADIVINHA...ADIVINHÃO...ihihihihih....

    www.sakanagem69.blogspot.com

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  6. Fodas, parece que trabalhaste na Torre das Antas, no 8º piso, junto àquela senhora das facturas...

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