3 horas depois, Obrigado Rei

Ontem fiquei agarrado à televisão. Depois, coxo, fui ao Estádio uns minutos. Vim para casa. Continuei ligado. Dor de cabeça. Não consegui escrever. Cama.
Hoje fui ao hospital e segui para o Estádio, lá ao lado. Fiquei durante grandiosos 20 minutos onde vi uma homenagem bonita, original e profundamente comovente. E vim para casa. E fiquei ligado. Estou agora a relaxar. Não quero escrever, não consigo. Mas de hoje não pode passar. É dia do Rei.

Não me sinto bem a escrever. Porque, um pouco por todas as redes sociais, já todos disseram coisas lindíssimas sobre o Rei Eusébio. Na televisão, ouvi e aprendi novas histórias fantásticas, contadas por quem conviveu com ele. E ouvi ilustres, que têm o dom da palavra, fazerem-me corar de vergonha por vir aqui escrever. Mas faço isto por mim, porque é a minha forma de deixar a minha homenagem.

Tive oportunidade de, no alto dos meus 14 anos, encontrar Eusébio na Gala dos 50 anos do jornal A Bola. Dei umas palavras de circunstância e pedi um autógrafo. Infelizmente não tenho nenhuma história bonita para contar. Mas há já muitos, muitos anos, passei a chamá-lo de D'Eusébio (não por brincadeira, não para alguém reparar). Talvez tenha sido a minha forma de homenageá-lo em vida.

Não é um familiar. Não é um amigo. Mas foi alguém muito importante. Infelizmente nem todos compreendem a magnitude deste Senhor, do que ele fez por todos. Nem todos compreendem que desporto também é forma de cultura. Que, no desporto, podemos encontrar as mais ricas formas de sentimentos e valores que existem na vida. Nem todos compreendem que hoje, mesmo que desapegadamente se proclamem benfiquistas, em muito se deve a Eusébio e seus colegas intemporais. Mas felizmente eu percebi. E por isso eu li, ouvi e vi muita coisa. E deixei-me contagiar pelo que se passou dentro e fora de campo.


É que a vida, sem estas coisas que nos fazem vibrar, é insípida. É que a vida, com lendas como esta, tem mais cor, tem mais sabor.
Eusébio não era apenas futebolista. Era um artista. Era um pintor. E como tal, pintou, ainda antes de eu nascer, a tela onde eu e muitos benfiquistas cresceram. E sou-lhe grato por isso.

Mas importa dizer que Eusébio não era apenas benfiquista. Era moçambicano e português. E era, realmente, de todos nós. E se não merece o Panteão, quem vai merecer? Quanto aos custos, haja vergonha. De qualquer forma, fico na dúvida se Eusébio, herói do povo, não deva permanecer junto dele. O Estádio seria hipótese?
Acerca das declarações infelizes sobre a suposta pouca cultura dele, digo apenas que não foi pelos homens menos cultos que chegámos ao estado em que o País se encontra. Se a classe política defendesse o País com o amor e profissionalismo com que Eusébio o fez, Portugal era um local melhor.

Não posso esquecer o que fez Óscar Cardozo. Nunca me esquecerei. Ainda no Estádio, esta manhã, passou a barreira de segurança e foi-se despedir pessoalmente do Rei. Pediu para lhe levantarem o véu e rezou. E depois despediu-se. À tarde, saiu do seu lugar assim que o carro funerário chegou ao cemitério. Saiu do seu lugar e, sob o temporal que se abatia em Lisboa, caminhou até Eusébio e veio junto a ele. Senti-me arrepiado. Não posso confirmar, mas é possível que Jorge Jesus estivesse no lado contrário a fazer o mesmo.

Demorei quase 3 horas a escrever este texto. Tempo suficiente para Eusébio fazer uma mão cheia de golos lá por cima.

Demorei quase 3 horas a escrever este texto. Tempo suficiente para partir outro ídolo, outro alguém importante. Porque todos os dias morre uma pessoa importante para alguém.

A Lenda, essa, é eterna.

Viva Eusébio! Viva o Benfica! Viva Portugal!

21 comentários:

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    1. Obrigado. Fico feliz por essas palavras e por, de alguma forma, ter conseguido passar qualquer coisa com as palavras.

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  2. É das coisas mais difíceis: querer homenagear alguém cuja perda sentimos terrivelmente e ser tomado pelo medo de não saber o que dizer ou não dizer o suficiente.
    Posso dizer-te que passa no teu texto o carinho, o respeito e o profundo sentimento de perda que estás a sentir - foi das homenagens mais bonitas que li, porque foi das mais sentidas.

    Não consegui publicar nada, ainda estou a conseguir lidar com a minha outra perda - 5 de Janeiro fica mesmo marcado pela morte.

    Um beijinho em ti, querido POC, e as tuas melhoras. Põe-te bom e é se queres que te pague um almoço. :)

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    1. Agora só Carla, uau. Sempre a inovar. Quase não percebia quem era ;)

      Para além dos nossos, dos próximos, acho que nunca devemos esquecer quem foram as grandes figuras deste País. Neste caso, Eusébio é intemporal e merece-o.
      Foi uma singela homenagem. Mas obrigado pelas simpáticas palavras. E força :)
      Beijo.

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    2. Gosto de te dificultar a vida. (:

      Faltou no meu comentário um «sem»: «ainda estou sem conseguir...».

      Tens razão, mas de momento sinto que qualquer coisa se partiu na nossa identidade nacional, como se a última ponte para a esperança se tivesse quebrado e que agora resta muito pouco. O nosso passado mais recente foi parquíssimo em heróis. Um dia destes hei-de escrever alguma coisa, por ora não consigo.

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    3. Eu percebi.
      Quando escreveres, farás magia com as palavras. Como sempre.

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  3. oh, simãozinho... deixaste-me sem palavras.
    obrigada pelo que escreveste, tão sentido.
    um beijinho muito grande.

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  4. Eusébio merece o Panteão Nacional, mas não seria descabido criar um espaço na Luz onde se erigissem cenotáfios dos principais elementos da história do clube. Um panteão benfiquista.

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    1. Bem-vindo. Completamente de acordo. Ele e eles merecem.

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  5. E em cada palavra tua, senti o carinho, o respeito, a reverência e a emoção que também em mim despertava (desperta) Eusébio.
    Cheguei ontem e também eu estive na rua para me despedir dele.
    Com a sua morte acabou uma era (é pelo menos o que sinto); uma era de gente humilde mas que soube empunhar a bandeira com orgulho, levou, humildemente, o nosso nome mais longe e vestia a camisola por amor, não por dinheiro.

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    1. Tens muito, muito bonito. Os meus parabéns.

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    2. @O Sexo e a Idade, sem dúvida. Não será igual. Mas cabe-nos honrar este Homem com a altivez do seu fair-play e simplicidade.

      @Dora, ela sabe sempre o que diz :)

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  6. Penso exactamente como tu, POC. Há inclusivamente palavras tuas que utilizei exactamente, palavra por palavra "E se não merece o Panteão, quem vai merecer?". E quanto a Soares ... quem é Soares ao lado do King? Inculto? Mas ele alguma vez teve as mesmas hipóteses para ser tão instruído como Soares? Gostava de pensar que a hipótese meramente teórica de Eusébio não ir para o Panteão se devia a algo mais do que ciúmes pela atenção mediática ou medo pela cor clubística mas tenho dúvidas. E no entanto Eusébio devia unir a todos.

    Enfim, forte abraço, as melhoras, vou-te mandar um mail para acertarmos almoço.

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    1. Como já li, o Panteão é onde D'Eusébio estiver.

      Abraço.

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  7. Não costumo comentar, apesar de passar por cá quase todos os dias e gostar muito de te ler. Só quero dizer que o teu D'Eusébio, o nosso D'Eusébio, ficaria de coração cheio se lesse esta tua homenagem.

    As melhoras!

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    1. Bem-vinda Marta Lima. Obrigado pelas simpáticas palavras. E continue a ler e a comentar, é um gosto tê-la por cá, ainda para mais quando nos toca assim.

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  8. Grande Autor, se eu fosse gaja que conseguisse escrever tão bem como tu teria escrito igual!! Porque tudo o que escreveste encheu-me o coração de carinho!! Carinho esse que transbordou e começou a saltar pelos olhos!! Que grande sacana que me deixa assim!!! Haverá melhor maneira de descrever a tristeza e o orgulho pelo Eusébio?? Para mim não!!!

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    1. Bem-vinda e muito obrigado pelas palavras. Aqui ninguém chora, que o Autor não deixa :)

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