Ah...que saudades das praxes...

Quando entrei na faculdade, aos 18 anos, não existiram praxes. Éramos os primeiros. A vida deu muitas voltas e acabei por frequentar outra faculdade, no mesmo curso. Aí, na Nova (Costa DE Caparica), haviam. Mas entrei mais tarde, já corriam as aulas e tinha 21 anos. Depois, com a minha postura de copo de uísque numa mão e charuto na outra, tinha um ar mais velho e ninguém me aborrecia. 
Acabei por mudar novamente de faculdade, mas agora também de curso. E desta vez para ir até ao fim e ser o melhor do mundo. Já estava a trabalhar e fiz o curso em regime pós-laboral. A vida académica não se sente tanto. 

Em resumo, vi muita coisa. Que pusesse em risco alguém, felizmente não. Vi uma ou outra coisa ridícula, mas não no bom sentido. E pensei "ai se fosse comigo...". E ri-me da tristeza desses imbecis. Porque são tristes. E imbecis.
Uma ou outra vez, quiseram que eu participasse, como praxista. Tive que explicar que só empranxava caloiras e mulheres maduras. E diziam eles "ah, mas assim nunca mais vais poder praxar". E eu respondia "vai mamar na 5ª pata do cavalo, que detesto gente ridícula com códigos ridículos". Vocês têm de me perdoar uma ou outra expressão a cair para o vernáculo, mas é que tenho um carinho especial por esta gente.

Bom, vamos colocar os pontos nos i's (e nos j's - toda a gente se esquece deles, mas tenho evangelizado algumas pessoas): a praxe saudável, que fomenta o convívio, que é divertida... é bem-vinda. 
Portanto vamos clarificar: eu só me vou referir aos imbecis que julgam que têm uma lei própria.

E o que é um imbecil das praxes? O imbecil das praxes é o aluno(a) que acha que existe mesmo um Código. É o tal que acha que, por ser um ano mais velho, é o dono do mundo. Que acha que pode mandar fazer o que quiser. Que arranja praxes humilhantes, parvas, ridículas e a roçar a escravidão. Esse é aquele aluno que também pode ser chamado de filho da puta. Que devia enfardar umas murraças na frente de toda a gente, indo buscar os dentes ao jardim mais próximo.

Importa falar de quem aceita ser praxado em condições deploráveis. Esse é o aluno(a) semi-imbecil. Ou parvo, vá. Porque alinhar, sem vontade, é ser-se também muito limitado intelectualmente. Mas qual é o problema de se dizer "eu não faço isso"? Que vai acontecer? O grupo do Código vai-se juntar e decretar que vão morrer de morte natural aos 124 anos?


(Nota da Redacção: este artigo é baseado no suposto pacto de silêncio)

Pronto, depois desta lenga-lenga, chegamos à tragédia do Meco. Morreram jovens. E sobreviveu um. Mas esse, e os outros que faziam parte mas não estavam na praia, estão num pacto de silêncio. Porquê? Porque devem achar que a Praxe é uma sociedade secreta milenar, onde estão a garantir a sobrevivência do mundo moderno ao não contarem detalhes do que se passou. Assim do género "vocês nunca iam entender".

(Lembrei-me agora, também gosto muito dos nomes deles, e do Dux e tal, os patrões... os mandões, os seres supremos. Isto porque o sobrevivente é Dux, não é? Nunca tive paciência para saber esses nomes. Para Quem é Quem, bastou-me o jogo.)

Então estes meninos, o sobrevivente e os outros, não falam? Muito bem? Prisão. Mas qual é a dúvida? Haja decência, coragem e honestidade intelectual. Se o rapaz não fala do que se passou, prisão. Quando quiser falar, sai. E isto SE tiver que sair. 
E resolve-se o assunto desta escumalha das praxes. Esteja ele em choque ou não, é inadmissível as famílias e amigos continuarem sem saber o que aconteceu.

Se por acaso a praxe que originou tragédia não era "má", então assuma-se que foi um acidente, que correu mal fruto da inexperiência, maluquice, juventude, álcool, drogas ou o que tenha sido. E como acidente, deve ser investigado para se garantir que nunca mais voltará a suceder. E de modo a que os familiares tenham direito a alguma paz.
Azares, infelizmente acontecem. Se alguma coisa saiu fora de controlo, que seja assumido e explicado.

Tivesse sido comigo, com algum dos meus. Os primeiros a serem apertados seriam os pais. Para darem educação ao filho e obrigarem-no a falar. Também são culpados, ao permitirem que um filho esteja em "pacto de silêncio".
E meus amigos, nestes casos, a violência não me choca. Mas mesmo nada. Eu usava-a, se necessário.
Educação é coisa cada vez mais rara neste País. E decência.

Como é óbvio, foi um azar. Ninguém tem de ser tratado como criminoso. Mas o silêncio, para mim, é crime.

51 comentários:

  1. Na mouche, POC.

    Essa da "sobrevivência do mundo moderno" está muito boa xD. Cuidado porque se eles revelam o que realmente aconteceu ainda invocam Satanás alteram o funcionamento do Núcleo da Terra...

    No ISCTE eles até que se esforçavam. Eu é que nunca gostei dessas merdas. Fui a uma e não fui mais.

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    1. Eles acham que estão numa seita. E aquela de ir a tribunal de praxe? Desmancho-me sempre a rir.

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  2. O tipo esta a mostrar que pode usar um avental.

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  3. última frase está excelente, muito bem observado. e, neste caso, se não é (legalmente) deveria ser.

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    1. Nestes casos a polícia tem de intervir com prontidão. Ou melhor, também nestes têm de agir de imediato e sem panos quentes.

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  4. Spot on.

    Pacto de silêncio? Tudo dentro. Tudo corrido à paulada. Ninguém é superior à justiça e quem cala em consciência é cúmplice.

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    1. Bem-vindo. Esse é, para mim, o resumo perfeito deste artigo.

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  5. Hoje é o dia dos posts das praxes :)

    Eu abomino praxes e não meti lá os pés. Não tenho paciência.

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    1. Uma opção. Tal como todos têm opção de não alinhar. Podem é não ter estrutura psicológica para enfrentar estes pequenos incidentes... e não conseguem dizer "não".

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  6. Ai POC o que eu gosto de ti!
    (Filhinho cá de casa recusou-se a participar nas praxes (seria ele o praxado); disseram-lhe que era mais facil integrar-se, ele riu-se, disse que a mãe não deixava (mentira, nunca lhe disse nada) e veio-se embora. Até agora ainda não lhe vi problemas de integração :)

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    1. Como é óbvio, não existem problemas de integração. O que poderá existir é uma selecção natural. Ou seja, serve para ver quem são os imbecis e quem são os verdadeiros porreiros.
      (Quem diz é quem é. Ou quem diz é de quem se deve gostar. Isto não está a soar bem, mas fica a ideia)

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  7. Apoiado a 110 %.

    Sérgio Teixeira

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    1. Obrigado. Já sigo o blog faz algum tempo e gosto. Continue.

      Sérgio Teixeira

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  8. POC, a praxe fomenta o convívio? De que forma? Desde quando fomentar o convívio passa por arranjar forma de ridicularizar alguém em prol das gargalhas de outros? Isto é uma coisa que nunca vou entender. E é o que acontece seja com que praxe for. Chega a ser quase primitivo. Querem fomentar o convívio? Vão beber um copo com os caloiros, façam uma visita guiada pelas instalações, joguem uma Suecada.

    PS- a Universidade não se situa na Costa De Caparica, pá! Monte de Caparica, assim é que é.

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    1. Existem praxes que são isso mesmo, simples brincadeiras, sem nenhum tipo de envolvimento lamentável. Essas sim. O resto, claro que estamos de acordo.

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  9. Tens tanta razão pá! Em relação a tudo! Tivesse sido familiar meu, e infernizava de tal maneira a vida ao gajo, que ele ia acabar por falar. É inadmissível estarem tantos pais a sofrer, a imaginar tudo e mais alguma coisa, quando aquele anormal pode, em dez minutos, esclarecer o que se passou.

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    1. Nem mais. Tem que falar. Nem que seja obrigado.

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  10. Eu assino por baixo. O que vejo é de uma cretinice atroz.

    Praxei e fui praxado, mas quando havia gajos a querer abusar mandava aquilo tudo à merda e ia à minha vida sob as horríveis ameaças de um tribunal de praxe. Uma chatice.

    Claro que se fosse hoje tinha recusado participar. Praxei uma jeitosa caloira há quase 19 anos que desde aí se tem vingado diariamente.

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    1. Parabéns, bela história. Assim a praxe faz sentido :)

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  11. E só mais uma "coisinha" : a praxe fomenta tanto o convívio, que como vês, com a maioria aconteceu uma de duas coisas : ou participou e não achou piada, ou recusou-se a participar. De facto, está aqui um instituto de valor e que se deve manter.

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    1. Talvez esse pensamento seja um pouco redutor, mas compreendo-o. Uma praxe, em que basicamente fazem-se jogos, há riso e boa disposição, é um catalisador. E acredito que, nesse caso, as pessoas gostem. Já quando se passa do risco...

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  12. Para começar, eu sou a favor das praxes! Participei activamente nelas e com muito orgulho! Mas atenção porque a praxe não é sinónimo de humilhação, é sinónimo de integração! Eu sou a favor das praxes de grupo onde se fazem jogos e actividades que estimulam o companheirismo e a interacção entre colegas! Sou a favor dos jogos onde eles têm de perceber que só juntos conseguem atingir o objectivo pedido e que sozinhos não vão nem até à esquina da faculdade!
    Mas também sou a primeira a revoltar-me contra praxes rídiculas e que coloquem em causa a integridade física e psicológica do caloiro! Mas aí, quando os Veteranos abusam também cabe ao caloiro não se sujeitar e aprender a dizer que NÃO! E depois quem não quiser fazer parte pode sempre declarar-se anti-praxe que não lhe cai nenhum raio em cima!
    E sim, as praxes, quando bem dinamizadas, são das melhores experiências a nível social que se pode ter na vida universitária!
    Quanto há tragédia do Meco não me consigo pronunciar pois não há factos suficientes para poder saber o que se passou (e pactos de silêncio nunca ouvi disso em toda a minha vida académica!!)

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    1. Aqui está um testemunho interessante. E positivo. Ou seja, é possível termos praxes saudáveis. Acredito nelas. Não acredito é em muita gente.

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    2. Claro que é possível, tudo depende das pessoas! E acho estranho o caso do Meco ter sido uma praxe visto que a Lusófona nem tem muita tradição de praxes, são uma privada..

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    3. O problema não é a Lusófona. São algumas pessoas das Lusófonas desta vida.

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  13. PRAXES SÓ NA TROPA QUE É PRA ENTESOAR PRÁ GUERRA

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    1. Olha ó Bujas, vai mas é arranjar os comentários do chavascal que é o teu blogue!

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  14. haha venho eu conhecer o teu blog e deparo-me com este mesmo tema :) vou bater de retirada sem sequer piar.. tou a sair de fininho... fui

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    1. Seja bem-vinda, NIX. Deixe o seu comentário :)

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  15. Bastava uma lista telefónica e uns míseros 5 minutinhos a sós com essas personagens... entravam mudos saiam directos para o factor x...

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    1. Nem mais. Que achas de fazermos nós isso? Tu fazes de polícia mau e eu de polícia mau.

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  16. Esses sacanas deveriam ser severamente castigados. O Dux, ou o raio que o parta, podia servir de exemplo à trupe: empalado, perdão, enpranxado, como dizes!

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  17. Há muita gente com sede de poder e a praxe é um excelente meio para o exercício desse poder, mesmo que este só exista na cabeça de quem a pratica. Mas pior do que quem humilha e quem se deixa humilhar, é quem permite que este suposto meio de integração se perpetue, quem permite que se formem seitas que promovem rituais envolvidos em mistério e pactos de silêncio, que mais não são do que uma forma velada de se esconder aquilo que se vai fazendo nesses meios. Na faculdade onde estudei, os praxistas fazem esperas a caloiros, procuram caloiros como lobos esfomeados, numa época de caça que se prolonga de Setembro a Maio. Quem se recusa é ameaçado com o típico "mas assim não podes trajar", o que acaba por resultar com muita gente. Não querendo tirar conclusões precipitadas, até porque não estava lá, parece-me que está à vista o resultado neste caso do Meco. O Dux não fala? Ponham-no a falar.

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    1. Fez-me lembrar daquele tipo que é o pau mandado em casa, o banana, mas na sua profissão de porteiro sente-se o rei, por poder dizer "esse guarda-chuva não pode subir ao 2º andar".

      O menino Dux (para mim o nome é outro) fala. E por mim, fala a mal. É que a partir do segundo minuto de um "pacto de silêncio" com mortes, falar a mal passa a ser uma opção.

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  18. Eu nunca frequentei a universidade e isso deve-se notar muitas vezes da maneira como vou escrevendo alguns comentarios.
    Mas sempre achei isso das praxes uma coisa absolutamente estupida ridicula e patetica. As serenatas monumentais de Coimbra,isso sim é uma tradição. Agora praxe...comigo levavam logo 2 ou 3 murraças nas beiças

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    1. Ter andado na universidade não é sinónimo de se dar mais ou menos erros. Ou, pelo menos, como supostamente seria na teoria. Não importa para o caso. O que importa são os valores que temos.

      Bem dito. As serenatas e tal, sim. Praxes do "mal", murraça.

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  19. Nem mais nem menos. Não podia estar mais de acordo contigo. Pelo menos alguém tem coragem de escrever aquilo que verdadeiramente sente.
    Filipe

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  20. Que texto maravilhoso e certeiro sobre o assunto. Existem praxes e praxes e isso está muito bem explicado aqui. Os meus parabéns!

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

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    1. Obrigado. Mas isso é muito elogio para um blogue tão lamentável quanto este.

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  21. Fui praxada. Praxei. É um grupo misturado com elementos da minha turma e outros que "nos praxaram" a que chamo "os meus amigos".
    Nunca me forcaram a nada ou constrageram de maneira alguma. O mesmo com os meus colegas caloiros.Reagiram fortemente contra quem ousasse passar os limites do bom senso de parte a parte. Foi nesses moldes que tentei actuar quando chegou a minha vez. É assim que vejo a praxe.

    Posto isto como nota introdutória, lamento que nao se pegue nesse sobrevivente e se meta numa sala fechado com 2 ou 3 polícias e que saia de lá com o pacto descosido. E quem diz ele, diz intimar a depor todas as comissoes. Mais cedo ou mais tarde, abrem a boca. É só usar o método certo e nao precisa doer. Só nao podem as famílias, além do luto pela morte de quem é seu, ter de lidar com bando de idiotas que andam a gozar com todos os envolvidos.

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    1. Mas...educação aos paizinhos e ao menino também se exige. E uns dias no hospital não faziam mal a algumas destas pessoas que, em acordo, descrevemos.

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  22. "É para aprendermos a respeitar a autoridade" como dizia uma menina daquela Universidade cheia de tradição académica ahahaahaaha! A Universidade dá instrução e cultura, os paizinhos deviam dar educação em que a base é o respeito pela autoridade, por isso parece-me que os valores desta gente estão um pouco alterados e isso não há praxe, Universidade ou professor que ensine, aprende-se em casa com a familia e chama-se EDUCAÇÃO.

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    1. Nem mais. Mas eu não consigo deixar de rir quando oiço falar de "código" e "tribunal de praxe".

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