Mulheres e crianças; O outro rescaldo do Jamor (ou uma carta aberta à PSP e à FPF)

Os jogos da Taça de Portugal são e sempre foram sinónimo de festa, de convívio, de camaradagem. É certo que devia ser assim em todos os jogos, mas isso levar-nos-ia a outra discussão. No entretanto, a final da Taça, no parque do Jamor, eleva ao expoente tudo aquilo que referi anteriormente: festa, convívio, camaradagem e…churrasco.

A tradição “manda” que se vá para a mata, onde as famílias e amigos se juntam num piquenique que mais parece um restaurante ambulante. Pelo menos foi assim no nosso caso.
Foi fantástico. Comida e bebida cumós ricos, boa disposição, quedas, frases para a história, bola, karaoke… Houve de tudo. Ao lado, alguns adeptos do adversário faziam o mesmo, em total paz e harmonia. O pior veio depois…

Com uma hora de antecedência, fomos para o estádio. Talvez tenhamos demorado quinze minutos até à porta da Maratona. A partir daqui, a Taça acabou. E não só pela confusão à entrada, mas já lá chegaremos.

Tratadas como animais (e ninguém devia tratar assim os animais), as pessoas ficaram autenticamente encurraladas devido à deficiente preparação (recorrente) da PSP e da Federação para este jogo. Num local onde entram, talvez, cerca de doze mil adeptos, existiam, salvo erro, quatro torniquetes a funcionar. Pior, não fizeram nenhum cordão para receber, organizar e encaminhar as pessoas.
Por exemplo, quando vamos para o aeroporto, devido à quantidade de gente presente, somos logo encaminhados para diversas filas, as quais começam com baias de segurança que obrigam as pessoas a percorrerem um “labirinto” com a extensão necessária e possível. Com isto, organiza-se e previne-se a confusão. No estádio, fizeram umas mini filas ridículas, mas já depois do perigo passar, depois da confusão, quando espaço é coisa que não falta no Jamor.

Famílias, mulheres, crianças e pessoas mais velhas foram obrigadas a passar por maus momentos. Nós, malta mais nova, ainda aguentamos estas coisas com alguma destreza, mas ninguém merece passar por algo assim para entrar num espectáculo, seja ele qual for.
O perigo existiu. Apesar de nenhuma tragédia ter acontecido, algumas pessoas magoaram-se ou viveram momentos de muita tensão. Durante bastante tempo, ninguém se conseguiu sequer mexer. Tentámos proteger uma criança que ia com o pai ao nosso lado, mas proteger é tentar apenas não magoar muito quem está encurralado ao nosso lado.

A PSP quis sacudir a água do seu capote, mas a mim não me enganam com comunicados e declarações ridículas. Haja vergonha. Haja coragem de assumir os erros. Haja vontade de corrigi-los. As pessoas não se aglomeraram todas a trinta minutos do início do jogo. As pessoas foram entrando e foram-se aproximando da entrada naturalmente. E muitas, tal como nós, foram com bastante antecedência para a entrada. Querem culpar os adeptos (que sim, há sempre imbecis que empurram – por serem mesmo imbecis ou por acumularem essa característica com o álcool), quando a maior culpa é deles. Tivessem preparado aquele “funil” de entrada com condições para ninguém se magoar nem se gerar o pânico.

O Estádio Nacional não terá as melhores condições, é certo. Mas com alguns ajustes e uma preparação eficiente por parte da PSP e da Federação, as coisas funcionam. Ou, pelo menos, funcionam muito melhor. É preciso é existir verdadeiro interesse em saber receber quem pagou para ser bem tratado, que é o que espero quando pago por uma coisa.

Se pensam que os maus momentos terminaram aqui, estão muito enganados.

Na bancada, quem paga tem direito ao seu lugar. Que é sentado. Quem apoia mais efusivamente, gosta de estar em pé. Aceito. Mas ou estão todos juntos, ou não podem estragar o jogo aos outros. O que se passa é que alguns adeptos ignoram o seu lugar e vão para o muro que separa a bancada da pista de atletismo. Ou seja, completamente fora do seu lugar, tapam a visão de muitos outros adeptos (as famílias, amigos, mulheres, crianças). Há quem se conforme, mas também há quem reclame e peça para as pessoas se sentarem.
Aos inúmeros pedidos de compreensão junto daqueles que tapavam a visão do relvado, a resposta foi, em alta voz “querem sentar, vão para a tribuna!”, com óbvios maus modos.
Um senhor na casa dos 60 anos, umas filas atrás do muro, gritou a reclamar, queria que saíssem da sua frente. Um filho de trinta cães (desculpa rapaz, não sei o teu nome, mas este assenta-te bem) saltou do muro, entrou na bancada para discutir com o senhor (com idade para ser pai dele) e, de repente, deu-lhe um soco, um murro, o que quiserem, em cheio na cara dele. Mas um soco a sério, punho fechado. A polícia estava a ver tudo a poucos metros de distância. Tudo. Não mexeram uma palha. A confusão estoirou na bancada, com mais pessoas envolvidas, e muitos pediram a intervenção da polícia. Que foi necessária, para, no mínimo, prender aquele adepto e fazer repor a ordem junto de outros imbecis. Este adepto do meu clube (e ali éramos todos Benfica), passou o resto do jogo a virar-se para trás e a dizer “lá fora mato-te”.

Eu vi isto a umas 6 ou 7 filas de distância. Não me contive. Não aguento, não consigo lidar com estas coisas, com injustiça, com selvajaria. Levantei-me, chamei o imbecil de tudo o que consegui, pedi para ele vir fazer aquilo comigo, chamei a polícia, tudo. Fiz uma triste figura. Tenho os meus princípios, mas depois não sei manter uma conduta correcta a 100%. E tenho que melhorar nisto, porque enervo-me e arrisco-me bastante.

A Taça acabou ali. Para mim, pelo menos. Tive bastante dificuldade em retomar a concentração no jogo, e nunca o fiz totalmente. Festejei o golo, continuei a sofrer, mas de maneira diferente. Festejei a conquista, fiquei bastante feliz por sermos vencedores, mas as coisas não se apagam da minha memória.
Nada justifica o que se passou antes e durante o jogo.

Ouvi alguns relatos de pessoas a dizerem que nunca mais vão voltar ao Jamor. Talvez até aos estádios. E eu compreendo. Ao ver estas coisas, também sinto alguma vontade de passar a ver os jogos em casa. Até ao dia em que o farei.

Acabou o jogo e voltámos à mata, onde fomos novamente tão bem recebidos. Mas a Taça já não era a mesma.


Termino, dizendo que a sociedade portuguesa está inundada de lixo. Lixo.

33 comentários:

  1. ser benfiquista é ser filho da puta!

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    1. O que aqui se discute não é o clube, é a formação das pessoas. Claramente serviu-te a carapuça.

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    2. Em não sendo benfiquista, assim se prova que os há noutros clubes.

      @POC: Bem que esta carta podia chegar aos responsáveis. Parece que são novatos nestas andanças e nunca orientaram eventos do género antes. Felizmente não correu pior :/

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    3. @Pusinko, sem dúvida. Por outros relatos, nem todos tiveram a nossa sorte. Mas sim, pelo menos não aconteceu uma tragédia.
      Vou tomar a sugestão em conta, apesar de que um artigo num blogue acabe por não ter expressão nenhuma.

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  2. Um amigo meu acabou o jogo de cadeira de rodas, com uma cervical e as pernas/joelhos todos fodidos!
    Porquê?! Porque estava no sitio errado e apanhou uma daquelas famosas "avalanches".
    Uma senhora de 60 anos, ao lado dele, acabou com a cabeça partida.
    Um dos bombeiros que o estava a levar dali para fora, apanhou um cena dessas outra vez e acho que se partiu todo.
    Enfim... uma tristeza!

    A tua última frase, com a qual concordo plenamente, infelizmente é a mais pura das realidades!

    P.S.: Tiveste tomates para fazer o que fizeste. Tiveste mesmo.

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    1. Lamento pelo que relatas. Não aceito isto, não faz parte do futebol. Pelo menos do meu.
      Em relação aos tomates, tenho-os, mas aquilo que fiz também não foi certo.
      Abraço.

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    1. Respect. É o que fica no final do dia.

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  4. Os gajos que não respeitam o lugar... puta que os pariu a todos, e ainda ficam chateados se alguem lhes pede para sentar, fodaçe... isso revolta-me

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    1. Se os clubes quisessem, se a Federação e a Polícia quisessem, acabavam com isso. Arranjavam um espaço onde se poderia fazer (para a claque, desde que seja exclusivo para eles) e quem não respeitasse, era retirado do estádio.

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  5. POC, este relato é teu e na 1ª pessoa, certo?

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    1. Porquê? És o filho de trinta cães e também me queres matar?

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    2. Foda-se, o que uma pergunta faz ao interlocutor... deduzes logo isso só porque fiz esta pergunta?

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    3. Calma... Estava a mangar. O filho de trinta cães deve ser iletrado, não conseguia vir aqui dar.
      Não sei se és novo aqui, se sim, bem-vindo, mas quem me conhece (só da escrita), sabe que é o meu relato.

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    4. Em Turim eram 4 contra 1, pq o 1 haviou o primeiro q apareceu. Cobardes.

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    5. Em Amesterdão tive de ficar de pé. Em Turim não.

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  6. Olá Simão,
    Gostei do teu relato - não do acontecimento, como é óbvio, mas da clareza com que o fizeste.
    Eu afastei-me do futebol de tal forma, que tudo o que lhe é relacionado passa-me ao lado, logo li a tua perspectiva com redobrado interesse e curiosidade. Basicamente no meu mundo pessoal, o futebol não existe. Faço por isso.
    O que tu descreves é um dos motivos: o hooliganismo, o anti-desportivismo, haver quem aproveite um evento desportivo para saciar a sua fome por violência, o vandalismo. É daquilo tipo de coisas que me mexe profundamente com os nervos, que quando passam cenas tristes destas nos noticiários sai-me um reflexo "era cair ali uma bomba".
    Sobretudo por quem aprecia o desporto de forma saudável, gostaria que solucionassem de vez este tipo de situações.

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    1. Obrigado. O futebol está cheio de gente que nem gosta dele a sério, apenas o utiliza, como a Ana Chagas bem disse, para saciar a sua fome de violência e vandalismo.
      O lugar desta gente é na prisão. Juntamente com quem rebenta petardos.

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    2. Nem mais, Simão!
      Mas prisão à séria, sem tv por cabo nem mordomias afins, do tipo espartano, onde há que trabalhar para comer.

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  7. É uma falta de civismo... Então claques é do pior!
    O problema com a PSP no Estádio Nacional é recorrente... todos os anos acontece o mesmo mas não há inteligência para mudar as coisas

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    1. Não há inteligência para umas coisas, mas há para outras.
      Quanto à falta de civismo, é possível que seja um mal maior que a própria crise.

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  8. ser benfiquista é ser gay!

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  9. Compreendo perfeitamente o que relatas em relação á ação policial.. Estive lá e assisti a tudo.. Iria ficar cara a cara com os robocops quando eles começaram a fazer cordão. Como o meu grupo de amigos tinha seguido, prontamente pedi a um agente para passar pois caso contrario iria perder me deles.. Os animos ainda estavam serenos e lá me deixou passar.. Depois disso enquanto não consegui entrar assisti a pessoas a desmair, raparigas a sair de lá todas amassadas e a chorar, crianças em pânico, policias a agredir pessoas..

    Nada justifica o sucedido e com situações destas (e as outras que tambem referiste), cada vez mais as pessoas tém medo de ir ao futebol.

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    1. Confirma-se, a tragédia não aconteceu, mas não ficou assim tão longe de acontecer, especialmente porque houve pessoas em mau estado, coisa que felizmente nem vi.
      Em Inglaterra, a polícia foi responsabilizada pela morte de muitos adeptos, por coisas semelhantes.

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    2. Já em Leiria, a segurança foi ridicula. Sempre os mesmos(Corpo de intervenção) a fazerem figurinhas tristes..

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    3. Não me lembro, mas não me apercebi de nada de grave.

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    4. à entrada madnavam o povo para a mata sem saida e depois tudo de volta a insulta-los.

      à Saida da Central, queriam obrigar todos(incluindo idosos) a subir uma escadaria gigante, em vez de deixarem fluir pelo anel exterior do estadio.

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    5. É difícil estar naquela posição e fazer sempre tudo bem. Mas sem sombra de dúvidas que alguns erros crassos e lamentáveis são cometidos. Na final da taça, assim se viu.

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  10. Realmente assim não vale a pena ir, que vergonha, que mau.
    O maior problema em Portugal é mesmo a falta de civismo, não tenho grandes dúvidas quanto a isso.

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    1. "Formação Cívica" na escola, desde o 1º até ao 12º ano.

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  11. Uma vergonha e uma falta de decoro a toda a prova da parte da fpf e da psp.
    Nunca fui ao Jamor e nunca irei precisamente por estas situações.
    Quanto a esse fdp que agrediu, devia ser morto ali mesmo na mata e enterrado. E não estou a brincar.
    Quanto ao facto de a nossa sociedade estar cheia de lixo. Sim, está e a mata também deve ter ficado.

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    1. A morte não é solução, pelo menos para este caso. De qualquer forma, é complicado que este tipo de pessoas alguma vez mude.

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